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02-Abr-2008 - É Culto de Personalidade, Bajulação ou o nosso Presidente é Génio? PDF
02-Abr-2008

É Culto de Personalidade, Bajulação ou o nosso Presidente é Génio?


Por: Joaquim Nafoia*


"Cidadão José Eduardo Dos Santos?!! Isto é falta de respeito colega. Você não sabe que ele é arquitecto da paz?! Exclamou intricado com ar de leão ferido.

Em resposta aconselhei-o que, sendo um estudante universitário, não era lícito adormecer no fanatismo partidário e culto de personalidade. As análises devem ser feitas na base de conhecimentos científicos, e não através da cor de camisolas partidárias.
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Num almoço gostoso de fim-de-semana, funji de bombo com peixe bagre fumado, molho de tomate com gindungo e cebola pisada de lado, acompanhado de boa kissangua, porque não consumo bebidas alcoólicas, larguei uma estrondosa risada que o meu compadre Jicula Messo, correspondeu, mais sem de facto saber a razão dela, na medida em que, era difícil compenetrar-se e saber o que imaginava sobre o Mundo maravilhoso que Deus Pai nos deu, embora cheio de conflitos, fruto de ambição desmedida dos homens que à imagem de Satanás o vão transfigurando a sua maneira.

Pensava, recordando quando era criança e adolescente, o celebre período de vigência do sistema mono-partidário em que o cabrito e o cão do chefe tinham mais valor e respeito que um ser humano.
 

Dei conta depois, que o compadre correspondera apenas para encobrir o ardor picante do gindungo que por excesso havia posto na comida. O meu compadre, enquanto disfarçava o que sentia na boca, deixou escorrer algumas lágrimas com corrimentos ranhosos descaindo a conta-gotas pelos cantinhos das fossas nasais.

Uma hora depois do calvário aconselhei-o a não abusar no consumo excessivo de gindungo, porque essa prática lhe era reiterada.

Mais tarde, perguntei-lhe porque razão correspondera à minha gargalhada com outra, ao que constrangido, respondeu.

Nada, nada, compadre.

Compreendi que afinal de contas fora mesmo por causa do gindungo...

Em seguida expliquei-lhe que na fase da minha tenra idade, assisti, para além dos maus-tratos à vida do ser humano, os comunistas ensinavam-nos a tratar o Pai e a Mãe de camaradas. Camarada pai ou camarada mãe.

Os comunistas impingiam na mente da população angolana que a revolução era mais importante que, a mãe e o pai. Diziam inclusive que não havia Deus, que Deus era a natureza e proibiam todos principalmente jovens e crianças, de frequentar aos cultos das igrejas.
 

Na vila de Camaxilo onde feliz e orgulhosamente nasci, um dos grandes carrascos da população, chamava-se Muaculungo que era o coordenador comunal. Este em 1977, acompanhado de um dispositivo da DISA e a ODP, interrompeu o culto numa Igreja Evangélica, e sem constrangimentos prendeu e conduziu a cadeia os seus anciões e diáconos.

Tinha eu 7 anos de idade e, nesse dia, recordo-me ter vestido o uniforme da OPA, Organização de Pioneiros angolanos, que era de cor azul claro, cujo uso era praticamente obrigatório.
 

Este hediondo acto ficou marcado para sempre na minha mente, porque do grupo que a DISA e a ODP levara para a cadeia, fazia parte o meu Pai. A soltura só aconteceu 3 dias depois de trabalho forçado com tortura a mistura.

Muaculungo que por sinal é um avô meu, encontra-se na fase de terceira idade da vida, abandonado a sua sorte, cansado e para sobreviver recorre ao trabalho de kimbandismo. Quando lhe faço recordar com nostalgia o seu comportamento, mostra total contrição, lacrimejando, remorciado pelos erros cometidos no auge da emoção revolucionária. Elementos que cometiam esse tipo de crimes por fanatismo eram na sua maioria analfabetos que agiam por inocência e ignorância, cumprindo muitas das vezes as ordens de topo.

Muitos dirigentes saudosistas do comunismo, que açambarcaram cargos de importantes instituições do País lá se mantendo de pedra e cal graças as «panelas de maiombola», intrigas, arrogância, bajulação e oportunismo, não se cansam de atirar farpas como formas de incentivar o conflito e consequente regresso ao mono-partidarismo.

Muitos, transformados em maus sobas, nenhum esforço fazem para a sua superação, de formas a adaptar-se aos novos ventos, através de luxuosas viaturas e poder financeiro que detêm por usurpação, desperdiçam o tempo dedicando-se a passeios com meninas de tenra idade, em pensões e hotéis, deleitando com aqueles corpos ainda imberbes, comendo «cabrité» bem regada com altas bebedeiras.

 

A cultura de bajulação está instalada a todos os níveis das instituições do estado angolano. É impressionante a genialidade técnica que o Presidente da Republica, o Eng.º José Eduardo Dos Santos, possui (duvido) para orientar todas as esferas da vida social. Da base ao topo, é o único elemento que pensa e com capacidade para poder orientar. Quadros de valia técnica, vêem-se a alinhar ao culto de personalidade honrando o chefe desde do pensamento técnico até ao pensamento político, subalternizando e ignorando as competências técnicas científicas apreendidas através do sistema de formação e experiência laboral.

As instituições do estado em pré-campanha frenética estão transformadas em robôs de culto de personalidade, a José Eduardo Dos Santos, que concorrerá a sua própria sucessão como chefe de Governo as eleições legislativas no ano corrente e possivelmente nas presidenciais de 2009, numa fraude descarada, muito por distracção dos partidos políticos da oposição.

Para conseguir um bom emprego exige-se o culto e a lealdade canina ao mesmo, para alem da camisola do Partido da situação ao peito, não importando para o efeito a competência técnico profissional.

Há dias, na Universidade em que estudo, num debate da cadeira de Ciências Politicas, ao analisar o perfil de prováveis candidatos ás eleições presidenciais discorri-me dizendo que, pelo tempo que se encontra no poder não era curial o cidadão José Eduardo Dos Santos, voltar a recandidatar-se porque já deu o que tinha que dar.

Mais, antes mesmo que terminasse com o meu raciocínio, um fanático colega saudosista do mono-partidarismo, enfurecido disparou, dizendo...

Ó colega, diz..! Sua Excelência o Senhor Engº José Eduardo Dos Santos, Presidente da Republica de Angola, e não o cidadão José Eduardo Dos Santos.

O que?!!

Cidadão José Eduardo Dos Santos?!! Isto é falta de respeito colega. Você não sabe que ele é arquitecto da paz?! Exclamou intricado com ar de leão ferido.

Em resposta aconselhei-o que, sendo um estudante universitário, não era lícito adormecer no fanatismo partidário e culto de personalidade. As análises devem ser feitas na base de conhecimentos científicos, e não através da cor de camisolas partidárias.
 

Há quem acha mesmo que, se estiver-se a falar do senhor José Eduardo Dos Santos, todos nos devemos cair ao chão pregando-se de joelhos. O culto de personalidade instaurado sobre Zé Dú, como carinhosamente gosta de ser chamado, leva muitos a cometer erros de palmatória e pior é quando têm o apoio da imprensa Pública. O Presidente da Republica, independentemente de pertencer ao MPLA, é o Presidente de todos angolanos e não deixa de ser um cidadão normal.

Angola precisa de quadros e dirigentes competentes que se dispam de complexos e tabus idealizados no passado, só assim é que estaremos em condições de conciliar e reconciliar os interesses da nação, caminhando para o desenvolvimento que todos almejamos.

* finalista de Ciências da Comunicação, pela Universidade Independente de Angola.

 

 
Opinião
  29-Jul-2010
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